terça-feira, 30 de junho de 2009

Oracle night

"At first, all goes well, but after two or three months a pattern begins to emerge, and Grace understands that she’s trapped in a machine. Trause wants her and he doesn’t want her. He knows he should give her up, but he can’t give her up. He vanishes and reappears, withdraws and comes back, and each time he calls for her, she goes flying into his arms. He loves her for a day or a week or a month, and then his doubts return and he withdraws again. The machine goes off and on, off and on… and Grace isn’t allowed near the control switch. There’s nothing she can do to change the pattern."

Oracle night, Paul Auster

Nunca parto inteiramente

Nunca parto inteiramente,
Não me dou à despedida
As águas vão simplesmente
Presas à sua nascente
É do seu modo de vida

Fica sempre qualquer coisa
Qualquer coisa por fazer
Às vezes quase lamento
Mas são coisas que eu invento
Com medo de te perder

Deixei um livro marcado
E um vaso de alecrim
Abri o meu cortinado
Fiz a cama de lavado
Para te lembrares de mim

Nunca parto inteiramente
Vivo de duas vontades:
Uma que vai na corrente,
A outra presa à nascente
Fica para ter saudades

Nunca parto inteiramente – Manuel Cruz

Mentiras

Odeio mentiras. Suponho que seja um sentimento comum à maior parte das pessoas. Também o é a mim. Odeio. Não falo de mentirinhas, daquelas que se dizem para dar um tom um bocadinho diferente à coisa, para proteger, para aligeirar. Essas eu consigo compreender, mesmo que não goste,mas consigo procurar um enquadramento para que existam. O que eu falo é da revolta das entranhas, vontade de partir a boca que diz as mentiras-burla! Aquelas que são ditas conscientemente para tirar partido, vantagem, moldar o nosso pensamento a uma realidade que não existe. Essas mentiras que nos querem burlar, que vêm com a intenção bem definida de nos enganar redondamente, para atingir um qualquer fim. Dá-me vómitos e mais ainda se quem as diz, confrontado com a verdade, enrola e usa as nossas palavras contra nós! O irónico disto tudo é que levam-me mais facilmente com a verdade nua e crua. É que depois descubro a mentira e não há maneira de dar a volta à questão!
Hoje descobri uma mentira burla e ainda não me passou a vontade de gritar!

Palavra

Hoje roubei palavra(s). Uma palavra muito grande.

"mamilahpinatapei" é a palavra mais sucinta do mundo. É dita na Terra do Fogo, dos dois lados da fronteira chileno-argentina, e significa:
"o olhar, olhos nos olhos, entre duas pessoas, cada uma a desejar que a outra inicie aquilo que ambas desejam, mas nenhuma tendo coragem de o fazer".

P.S-Obrigada P.Ch :)

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Couscous e caril verde

Não sei a cor do teu cabelo. Se louro, em melenas caídas, se escuro de corte quase pente zero, a deixar ver as veias que palpitam de cada vez que a voz entontece e sobe um decibel.
Não faço ideia da cor dos teus olhos, se verdes a mostrar um qualquer campo de relva, erva fresca cortada, onde nos sentaremos em pic-nics, se escuros como a noite que envolverá cada chegada a casa, parecia que o dia não acabava e já tardava a hora de te ver. Não advinho a tua altura, se grande suficiente para que chegues à prateleira de cima onde estão as taças para os morangos, ou se tens a que me fará andar de sapatos rasos o resto da vida para que haja alguma harmonia nos passeios em que pões o braço por cima dos meus ombros e me puxas para o teu.
Terás um copo esguio, trabalhado por algum desporto, o suficiente para que reconheça as linhas dos músculos sem que eles saltem ao mínimo acenar, ou terás uma barriguinha voltada ao céu, feita almofada onde a minha cabeça repousará no final de tudo arrumado.
Suponho que gostarás de música, de ouvir e até trautear no duche e naquelas alturas em que me quererás dizer alguma coisa já musicada, mas os gostos não se discutem e entre música clássica e heavy metal há um espectro tão grande de melodias que encontraremos uma que faremos nossa e que ouviremos juntos a menear ancas e sorrisos. Só não sei qual será e por isso vou ouvindo tudo o que paira no ar.
Desconheço qual o teu prato favorito, mas gosto do cozinhar e dos tachos subirá um aroma a um qualquer condimento usado a teu e a meu gosto.
Serás da praia, areia escaldante, melanina a ser puxada até rebentar a pele em sal, ou do campo, leve descansar rústico respirando pequenas golfadas de pinheiros ainda por cortar. Haverá 22 dias de férias anuais para que me digas sempre dos teus destinos e das paisagns em que gostas de te perder.
Talvez gostes de futebol, é grande a probabilidade, mas as cores dos nossos clubes podem ser diferentes e torceremos, com cachecóis postos ao pescoço, em discordância. Ou seremos os dois uma só voz a puxar pela mesma equipa até ficarmos roucos.
Não sei que língua falarás, mas estou certa que as palavras serão sempre servidas à mesa de cada vez que se quiser saciar a fome ou só a gula de nos ouvirmos falar em qualquer língua percebida, entendida, gritada ou sussurada.No meio disto o silêncio, confortável porque não é preciso encher tempos que são de cada um no meio do nós.
Não sei nada de ti. És um total desconhecido. Mas um dia virás no meio da multidão e daremos um encontrão que fará nascer o Amor alquimista tu és meu e eu sou tua!

Tasmanices XXIV

Na festa de final de ano do colégio da Diaba, foi feito o desafio de se escrever um pequeno cartão com palavras de esperança, que depois seria atado a um balão e lançado para que quem o encontrasse, encontrasse, também, uma palavra dirigida.
Achei giro e lá fui com a Diaba para escrevermos o nosso.
Mãe- Então filha o que escrevemos aqui?
Diaba- Escrevemos Amor, Mãe, porque o Amor é o mais importante de tudo!
(Mais tarde a Mãe irá explicar-te que dinheiro, muito dinheiro, também é importante, mas por agora deixa-me ficar presa nos teus olhos... os olhos com que tu sorris e me enches...)

Numa pequena viagem de carro, a S. sussurava para me contar uma conversa que a Diaba tinha tido com ela. De repente, do outro lado do banco ouve-se:
Diaba- Ó S. olha que eu estou a ouvir tudo!
(Errr, pois! A minha filha tem sempre um olho no burro outro no cigano. Não lhe escapa uma... mil cuidados, é o que é preciso! Eheheh)

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Intenção

Quietinha no meu canto. Bem quieta, sem mover um músculo, sem ir a lado algum.
Os caminhos por onde eu queria ir estão vedados e eu respeito demasiado a propriedade privada para andar a saltar muros. Por isso, vou ficar quieta no meu canto até que me passe o desassossego e outros caminhos se abram.

Ensemble

O segredo é teres sempre os olhos fechados, dizia Laurinda. Assim que chegares, fecha os olhos. Desta maneira, tudo se passa dentro de ti. Podes imaginar o que quiseres, sonhar com o quiseres. Deixares que aquele perfume, tão querido num corpo e que te dá vómitos noutro, te invade e faça a música que tu queres.
A princípio achei estranho de conseguir. Como é que o simples facto de fechar os olhos poderia fazer com que fosse mais fácil ou mais mágico? Mas resolvi tentar.
Durante o dia era fácil, andava sempre de óculos escuros e fechava os olhos sem que ninguém notasse. À noite fazia-o com um sorriso e os outros pensavam que era por deleite, introspecção, querer sentir. Que me enchiam. E sentiam-se bem ao pensar que era isso que me faziam. Tolos! Enganei-os a todos, esses tolos tão cheios de si que nunca perceberam que os olhos fechados eram a maneira de sair dali. Do cheiro que gostava num corpo, não me fazer vomitar no deles. De olhos fechados podia estar onde quisesse, amar como quisesse, num estado só meu, num espaço só meu, num amor só meu. Só assim foi possível serem todos os que foram sem vomitar.
Nunca abri os olhos, nunca voltei a encontrar o cheiro e o corpo num só e apenas Laurinda sabia o meu segredo.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

XXIV

"Se houvesse faróis suficientes
em todas as encostas e cabos,
se toda a deriva trouxesse
cantos épicos e novos sinos,
por deus, escreveria odes
outras que não te canto.
Tanta praia a escurecer,
tanto sol-posto, sentado,
debruçado sobre um sem tempo,
esperado pelo mundo,
comungando sem desejo.
Que houvesse monges e milénios
de um ócio inexpugnável,
que a alma vazia fosse mansão
de um ruído semelhante ao mar
para que eu fosse por ti desejado,
tanto quanto aqui existisse amor.
Esse espaço não tem sentido,
que ocupas.
Tanto és como outra surges.
A inconstância custa-me a paz,
e as línguas de terra pelo ponto adentro
iluminam sempre a mesma costa,
jogos de três espelhos, sem arcos.
A viciosa sorte desanima-me,
os joguetes de mãos nocivas
esgueiram-se entre os arvoredos.
Talvez consolado por essa água
que de sal me apresenta a noite,
caí sem oriente.
O corpo ferido reclama o teu descanso,
misteriosamente minha.
Estou sujo. Os faróis morrem.
Encontrasse eu outros portos
onde menos fosse o vento
e mais a tua presença."

PEDRO BRAGA FALCÃO
(de Do princípio, edições Cotovia, 2009)

Uma especie de Tasmanice

A Diaba estava num daqueles dias em que “cabra” com tudo (expressão que basicamente define aquela neura que faz refilar com tudo, tudo).
Nos dias em que está assim, em que dispara em todas as direcções, geralmente aconteceu alguma coisa. Quando já estava na cama e depois de muita insistência minha, com falinhas mansas, lá veio tudo. Lágrimas e lágrimas, palavras que quase não se percebiam e um mundo de emoção daquele corpinho.
Finalmente contou a história. A Educadora da Diaba instituiu um género de jogo em que no final do dia os que se portaram bem têm direito a uma surpresa (um bombom, um rebuçado…). Ontem só uma coleguinha ganhou a surpresa. Foi a primeira vez que a Diaba não ganhou. Até aqui tudo mais ou menos bem. O grande problema foi que a Diaba achou que foi injusto, que merecia ganhar porque se portou muito bem, comeu tudo, fez os trabalhos, não fez barulhos. Doía-lhe a injustiça. Doía-lhe muito. E já não é a primeira vez que lhe dói, ela já disse não querer ir para a escola porque os outros portavam-se mal e a educadora ficava chateada e ela que se portava bem, não estava para aturar aquilo todos os dias (isto eram palavras dela).
Falámos muito sobre isto. Eu acho e defendo (mais uma teoria da batata) que a conversa também se educa. Também é necessário estimular o falar sobre tudo o que vai cá dentro e por isso tento sempre que ela diga o que pensa. E por isso, também, falámos na necessidade de ela falar com a Educadora sempre que sentir que é injusto.
Estas conversas revolvem-me as entranhas. Nunca sei exactamente o que dizer ou o que fazer e o que isso irá projectar no futuro. Nunca sei se a ajudo a aceitar que há muitas e recorrentes injustiças, se a estimulo a revoltar-se. Basicamente nunca sei o que ando a fazer…e isso mete-me muito medo. Mesmo muito.
Mas sei que continuo a achar bem, muito bem, estimular as conversas, mesmo que sejam difíceis. Estimulá-la a tê-las também, mesmo que a ela lhe custe. Mas também só tem cinco anos…
O resultado disto tudo foi um acordar bem disposto, cantorias até ao colégio, de mão dada, para falarmos as duas com a Educadora. A Educadora não estava, portanto combinei com a Diaba que no dia a seguir faríamos a mesma coisa e recebi em troca uns braços apertados no pescoço e um “Obrigada Mãe. És a melhor Mãe que eu podia ter.”

P.S- Não sei se sou, meu Amor, mas amo-te muito e tento fazer o meu melhor. Todos os dias. Mesmo não sabendo o que ando a fazer.