segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

Cartas da Tasmania

Meu amor, escrevo para que um dia te possa mostrar o que se passa cá dentro. Não espero que hoje o compreendas, afinal só tens cinco anos, mas quem sabe quando fores mais velha olharás estas palavras e talvez um sorriso te assome aos lábios.
Balanço muito entre o que acho que devo fazer para te educar e o tentar respeitar-te sempre como ser. Tu és uma pessoa, não uma continuação do que eu sou, e por isso a minha vontade não tem de estar sempre a imperar sobre a tua. Mas também tens cinco anos e as decisões que dizes escolher só podem ser moderadas pelos teus curtos anos.
Eu tento explicar-te, tento mostar-te os vários pontos de uma mesma questão. O que para ti é um jogo divertido, o pegar num papel e por os prós e os contras de um dilema, para mim é uma forma de te fazer pensar, porque acredito piamente que qualquer decisão deve ser posta assim.
Ontem, embora na tua tabela tivesses cinco prós e um contra, o teu medo fazia-te querer optar pelo contra e explicaste-me muito bem esse medo. Eu percebi, mas não podia aceitar que ficasses e não aproveitasses o que sabiamos, as duas, que ia ser bom.
Soube-te a violência gratutita quando te peguei ao colo e te obriguei a enfrentar. Custa-me tanto ou mais que a ti, quando os teus olhos marejados se viram para mim e da tua boca sai um "és má", mas entende, de ti não posso nunca desistir. Sim, atirei-te para a frente, é verdade, mas não te atirei sozinha, fui ao teu lado.
Era mais fácil aceitar o teu medo, aconchegar-te a mim e passarmos a tarde juntas, mas o mais fácil nem sempre é o melhor e eu morro de medo do dia em que não estarei para te ajudar a enfrentar medos ou do dia em que nem sequer saberei quais são.
Também eu morro de medo, morro de medo desses dias e morro de medo de não te conseguir mostrar que medos todos temos, mas se sabemos quais são devemos pegar neles e soprá-los para longe. Viver é assim, e para ti o que desejo é que vivas, muito, muito e não que apenas passes por cá.
Sei que o percebeste muito bem quando no principio da noite te sentaste ao meu lado e disseste "É normal termos medo, mas afinal correu tudo bem e foi divertido. Ainda bem que fui."
Estarei sempre, sempre ao teu lado. Amo-te de uma forma incontrolável e por te amar tanto é que não posso nunca desistir de ti. Percebes? Um beijo grande da Mãe.

Tasmanices XXXII

Sábado à noite foi dia de concerto. Para a Mãe, Pavilhão Atlântico, para a Diaba, Gare do Oriente. Quando nos voltamos a encontrar, no meio da chuva, mão dada, enquanto se trocavamos impressões:
Mãe- Quando fores maior, vamos a um grande concerto as duas.
Diaba(apertando mais a minha mão) - Ó Mãe, quando for maior vais ser velha e não vamos gostar da mesma música!
(Não sei se me incomoda mais estares sempre a falar da minha velhice se achares que não nos vamos entender na música...)

A modos que uma private tasmanice
Domigo à tarde, à saída de um supermercado, chovia.
Diaba- Mãe, temos de mandar uma mensagem às meninas e dizer que estamos em perigo. A chuva está em posição de ataque!
(Alterno entre achar que vocês lhe fazem bem, porque aguçam a ironia, e achar que vocês lhe fazem mal por temer pela sanidade mental da miúda! Miss Lion, ela jurou à tia que a ti tinha mesmo mandado a mensagem!)

A meio da tarde do Domingo, a Diaba estava com um dos seus ataques pré birratórios em que fala em tom choroso.
Mãe- Bolas, Diaba, fala lá como deve ser. Tu não és bebé, não tens cinco anos!
Diaba (abrindo muito os olhos de espanto)- Ó Mãe, mas eu tenho cinco anos sim!
(Errrrr, pois miúda, pois tens... foi um desvaneio da Mãe)

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Crença

Este blog está em modo ansiedade extrema. Já roeu unhas, dedos e só se consegue ver a ponta do cotovelo.
Este blog continua a acreditar. Muito. Foi acompanhado por sol, o caminho todo da segunda circular e isso tem de significar alguma coisa de bom!

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

De joelhos, como se fosse uma oração

Pergunto constantemente, e de mim o que queres, afinal?
Tens tudo o que acontece no segredo entre as coisas, no espaço entre as palavras, no momento preciso da acção, a respiração em todo o circuito de inspira-expira.
Escrevo como se fosse um contrato, cheio de cláusulas que garantam a verdade com que assino.
Nada disto perturba a harmonia e eu dou-te o melhor. Basta que respondas, e de mim o que queres, afinal?

Por favor!

Parece que a luz ao fundo do túnel, desta vez não é um comboio! Parece! Estou quase a partir os dedos de tantas figas fazer! Tomara, oxalá, assim seja, Deus queira, patas de coelho e ferraduras penduradas!

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Encontros

Já comecei este post três vezes e três vezes apaguei a primeira linha. Não sei bem porque, porque na realidade só queria dizer que hoje o telefone tocou e do outro lado me disseram "está aqui fulano tal, que queria falar consigo" e eu, que já não tenho memória para tanto, fui à entrada para rir com vontade porque lá estava alguém que já não via desde 2000. Nove anos! E foi um momento giro trocarmos nove anos de vidas e filhos e mudanças em trinta minutos. Trocámos, também, contactos para que não se passem mais nove anos.
E isto deixou-me uma ponta saudosista, mas das boas! Bolas, que giro que foi.

Destaques da temporada

Os dias vão passando e já é quase final do ano. Passou depressa, talvez demasiado depressa este ano que já é quase fim.
O Natal já está por ai, nas superfícies comerciais com músicas irritantes a tocar ininterruptamente, como o ano que passou depressa demais. Parece que não houve tempo para aproveitar os momentos de deleite, quando se deram corpo por eles já tinham passado.
São outros lugares que tornam da distância o impossível e era tão bom não ter calendários e os dias serem o que quisermos. Completamente trocados e hoje apetecia-me que fosse aniversário. Estaria um calor tímido a começar e o início do jardim a ficar verde. Estaria um daqueles dias de sol, com óculos escuros na esplanada do costume a pedir uma coisa qualquer que fosse o pretexto para ver gente a mexer por ali.
Sobretudo, estaria a leveza do corpo a descobrir mais um tempo na vontade urgente de ser qualquer coisa nossa.
No meio do calendário, afinal, foram pequenos passos dados ao lado e no espaço onde estou agora não vejo quem passa, quem entra e quem sai e é quase o mesmo Natal.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Café

Tinha muitas saudades de mim, mas nenhuma vontade de me ver, e quando lhe perguntei porque, disse-me que não conseguia, porque se me visse ia querer mais, ia querer ver-me todos os dias e isso era imposível porque eu não me mostrava.
E era verdade. Não que não gostasse dela, afinal tinha-lhe telefonado,mas era como um bom livro que se colecciona e se volta de vez em quando para ler uma passagem em especial, porque se sabe que é bom.
Ela falava sobre o erro crasso que tinha cometido ao apaixonar-se naquela tarde de primavera e eu lembrava-me dos seus pequenos seios que apertava enquanto lhe desapertava a blusa. Era engraçada, de um modo quase pueril quando ria genuiamente e muito alto. Gostava das pernas, especialmente de as ter à volta, apertando-me, nuas e depiladas. Havia qualquer coisa de calmante à sua volta.
"Porque sempre te mostrei, mas nunca te disse e é isto, gosto demasiado de ti e hoje é dia de te dizer a verdade para te perder de vez em mim." Desligou.
Seja como for, nunca tinha pensado em apaixonar-me por ela e agora já era tarde demais. Levantei-me, bebi um copo de água e liguei a máquina de café. Já estava a ficar de noite e apetecia-me ver o filme que tinha alugado. Talvez telefone à Lídia.

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Hoje e sempre

Gostava, hoje, principalmente hoje, de te oferecer colo. De me oferecer o teu colo.
De juntos passarmos a mão na cabeça um do outro e dizermos “ Está tudo bem. Vai sempre estar tudo bem”.
Como se fossemos os dois cegos e os dois guias e dependêssemos sempre do colo um do outro.
Só assim. Simples. O conforto do calor do monte de erva fresca e fofa e na escada o beijo.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Cartas privadas

Foi no sonho que o voltou a ver. Assim que entrou no espaço, uma qualquer tenda daquelas de festividades, montadas em circo de vaidades, reconheceu-o, ainda de perfil, numa gargalhada. Ali estava, sorridente, mão dada com uma mulher qualquer, rápida, apanhada a meio de um caminho. Ao lado, a mãe, o pai e demais família que erguia copos aos amigos em brindes de celebração por mais qualquer coisa que tinha sido feita, alcançada, melhorada ou qualquer coisa assim que servisse para acalmar gargantas.
Em passos firmes dirigiu-se, entre sorrisos e beijinhos “olá, como está?” e surpreendeu-o de costas murmurando junto ao ouvido “bons olhos (os meus) te vejam (os teus).”
Na realidade queria dizer-lhe “os meus olhos continuam só teus” mas de cada vez que tentava soava-lhe a ridículo, o tom esganiçado de um só fôlego atropelado.
Ele virou-se e respondeu naquele jeito só seu de lhe falar sempre em piada ou ironia, mantendo um anti clímax propositado para se escudar da seriedade atrás de um qualquer dito.
E assim, aniquilava qualquer vontade dela, de lhe dizer, esgotando todas as maneiras, tecnologias mais avançadas, pombos com anilhas, sinais de todos os fumos em espirais respiradas pelos ares, bilhetes deixados como se fossem ao acaso, cartas seladas pelo ctt.
Não que ela não tentasse, mas como dizer o que o outro teimava em não querer ouvir? Deixava sempre o que era importante, como se qualquer declaração da sua parte fosse causadora de um cataclismo insuperável entre os dois, por ele nunca se dispor a ler as entrelinhas de qualquer das suas acções.
Vinha, então, outro gracejo, outra ironia e num bambolear ela afastou-se, certa de ter errado a deixa naquela peça improvisada no meio de um sonho. Pegou num copo e juntou-se ao brinde.
Foi assim que o voltou a ver.