terça-feira, 3 de novembro de 2009

Cartas privadas

Foi no sonho que o voltou a ver. Assim que entrou no espaço, uma qualquer tenda daquelas de festividades, montadas em circo de vaidades, reconheceu-o, ainda de perfil, numa gargalhada. Ali estava, sorridente, mão dada com uma mulher qualquer, rápida, apanhada a meio de um caminho. Ao lado, a mãe, o pai e demais família que erguia copos aos amigos em brindes de celebração por mais qualquer coisa que tinha sido feita, alcançada, melhorada ou qualquer coisa assim que servisse para acalmar gargantas.
Em passos firmes dirigiu-se, entre sorrisos e beijinhos “olá, como está?” e surpreendeu-o de costas murmurando junto ao ouvido “bons olhos (os meus) te vejam (os teus).”
Na realidade queria dizer-lhe “os meus olhos continuam só teus” mas de cada vez que tentava soava-lhe a ridículo, o tom esganiçado de um só fôlego atropelado.
Ele virou-se e respondeu naquele jeito só seu de lhe falar sempre em piada ou ironia, mantendo um anti clímax propositado para se escudar da seriedade atrás de um qualquer dito.
E assim, aniquilava qualquer vontade dela, de lhe dizer, esgotando todas as maneiras, tecnologias mais avançadas, pombos com anilhas, sinais de todos os fumos em espirais respiradas pelos ares, bilhetes deixados como se fossem ao acaso, cartas seladas pelo ctt.
Não que ela não tentasse, mas como dizer o que o outro teimava em não querer ouvir? Deixava sempre o que era importante, como se qualquer declaração da sua parte fosse causadora de um cataclismo insuperável entre os dois, por ele nunca se dispor a ler as entrelinhas de qualquer das suas acções.
Vinha, então, outro gracejo, outra ironia e num bambolear ela afastou-se, certa de ter errado a deixa naquela peça improvisada no meio de um sonho. Pegou num copo e juntou-se ao brinde.
Foi assim que o voltou a ver.

1 comentário:

Carlos disse...

Toda a gente quer ir contigo na limusine, mas o importante é ter alguem disposto a a acompanhar-te no autocarro quando a limusine avariar...............bjs